sábado, 30 de março de 2013


Ars poetica


Não tenho voz de queixa pessoal, não sou
um homem destroçado vagueando na praia.
Drummond

por certo não sou digno da poesia
é o que se comenta
nos pequenos círculos

não comi a flor de lótus
tampouco sai às ruas chapado de rivotril

também disso estou certo
– eles o dizem, por que duvidar –
não evitei o amor
 essa grande balela

sequer morri de tuberculose
(nos corredores de uma sinistra biblioteca)

é o que se comenta
quem sou eu para duvidar

não me matei (ou matei alguém)
pelas palavras – ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência a vossa, etc e tal –
muito menos tive a Grande Visão

não vendi armas ao rei da Abissínia
ou cruzei o país
– vagabundo em um vagão –
no encalço do Sublime

quinto






a canção repetia:

...que parece que estou carregando os pecados do mundo.
...que parece que estou carregando os pecados do mundo.

como um refrão de acusação
uma constatação relativa baseado
em particular perspectiva sem nenhuma confirmação divina

a primeira canção da estrada que ouvia na radio
embalava estranhos sonhos de viagem

o que teria vivido se abandonasse a casa paterna
e movido pelo rock rural partisse sem destino pela estrada

seria possível recuperar nessa altura da vida essa jovialidade ingênua
seria possível ainda cantar o refrão da antiga canção

tantos anos  passaram quase despercebidos
quebrando certezas
restou apenas a primeira canção da estrada
quase intacta cantada na radio imaginária
insistentemente tocada dentro da saudade de um tempo que não aconteceu

O Presente

 Ao te ver surgir ali entre os pingos da chuva tua vida, qual perfeita luva encaixou-se na minha. E então a linha do antes e do depois se pôs à minha frente e minha alma carente te quis assim, de presente. Desde então promessas, vidas às avessas e um mundo inteiro entre nós dois. Mas por uma fresta minha vida te trouxe para a festa, para o sonho, para o mundo, para mim... E agora minha boca salgada diz não querer mais nada. E o presente... é esse para sempre... na vida da gente. Anderson Julio Lobone

PRO QUE VIER E PRO QUE DER...[poeminha pra Matilda]




quando voltares do pranto
dar-te-ei sorrisos de braços abertos
estarei aqui
estarei por perto.

quando voltares do pranto
serei teu barco ao vento
serei teu porto e farol
no meio de tuas mais longas noites.

quando voltares do pranto
conte comigo, não se espante
conte até dez, mas grite
grite muito, grite bastante.

quando quiseres voltar do pranto
quando puderes voltar do pranto
volte e olhe:
a vida te quer sorrindo.

se fores voltar ao pranto
certamente estarei por perto
antes que chores novamente
dar-te-ei sorrisos de braços abertos.

entre o cansaço e o silêncio santo
tentarei de tudo um tanto:
estarei e sonharei sempre contigo
eu mesmo farei cócegas no teu umbigo...



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